No final dos anos 80 (do século passado), no 10º ano, aprendi a fazer tabelas de verdade para analisar o valor lógico de proposições escritas à custa de conjunções, disjunções, implicações e negações de outras proposições. Era assim no século passado… os professores e alunos mais novos que eu, não terão passado por este percurso formativo, em resultado de uma evolução do currículo, coerente com as práticas da generalidade dos países desenvolvidos.

Com o novo programa de Matemática A, os alunos (e professores) do 10º ano deveriam voltar a construir tabelas de verdade… como se fazia no século passado (literalmente)... ou pelo menos, é assim que está preconizado no programa e é assim que os manuais aconselham… mas dificilmente será assim!

O mundo mudou… a escola mudou (pouco, mas mudou!)... os alunos mudaram (muito!)... até as práticas dos professores mudaram, por isso, não devemos (nem podemos) voltar a fazer como se fazia antigamente, por exemplo, as tabelas de verdade!

No caderno de apoio ao programa de Matemática A (pág. 4) é sugerido um exemplo de uma tabela de verdade… onde, para a obtenção da última coluna - a condição (p ∧ q)∨(p ∧ r) - é necessário o preenchimento de 5 colunas adicionais com 8 linhas cada (40 células). Nada de especial… mas o mesmo resultado pode ser obtido imediatamente em várias aplicações online, por exemplo na aplicação WoframAlpha

Devemos esconder dos alunos esta funcionalidade quando ensinarmos a construção de tabelas de verdade (e deixar que os alunos descubram fora da escola)? Devemos ensinar com papel e lápis, e só depois mostrar aos alunos esta alternativa? Devemos inviabilizar esta hipótese por ser uma funcionalidade que depende da Internet, e porque os alunos (ainda) não têm acesso (legítimo) à rede durante os testes e exames?

E se os alunos puderem fazer tabelas de verdade com as calculadoras gráficas? Esta é uma hipótese real… numa pesquisa rápida pela Internet não se encontra facilmente uma aplicação para calculadoras gráficas que produza tabelas de verdade… mas já se encontram várias entradas em fóruns sobre a construção destas aplicações. Estaria disposto a apostar que no próximo ano, estas aplicações irão surgir… pelo menos é completamente seguro afirmar que haverá alguém a tentar programar uma aplicação destas…
E depois? Proibimos a calculadora? Eliminamos as tabelas de verdade do currículo? Propomos exercícios que dependem unicamente de colocar uma entrada na calculadora para os alunos copiarem o resultado para o papel?

Na divulgação do programa de Matemática A, investiu-se na advertência para as limitações da tecnologia… e substimou-se as suas potencialidades. Usar a tecnologia no estudo da Lógica nunca foi referido como uma prática pouco recomendável… talvez por ninguém se ter lembrado disso, talvez porque a lógica desta Lógica é a do século passado - não serve para a escola de hoje… fazer tabelas de verdade como se faziam no século passado, será uma espécie de mentira para os alunos de hoje.

primeira versão deste texto foi originalmente publicada na rubrica Valor Absoluto do Clube de Matemática da SPM, em 11 de julho de 2015.

Atualização:Um dia depois da divulgação deste texto foi divulgado um programa para gerar tabelas de verdade na calculadora gráfica, da autoria de Carlos Paulo Freitas.