Ainda num processo de rescaldo em relação ao final do 1º período, importa refletir acerca do que é avaliação na disciplina de Matemática.
Na minha opinião, acho que a parte ingrata da profissão docente é esta: a atribuição de um nível/classificação ao aluno.

Relembro-me de um documento muito importante e atual no seu conteúdo, lançado pelo National Council of Teachers of Mathematics na década de 90.
O documento “As Normas para a Avaliação em Matemática Escolar” constitui um marco na clarificação do que se pretende de um processo avaliativo completo e exemplar. As ideias nele contidas convergem para o objetivo essencial do ensino:

“Tendo presente que o objetivo último e primordial da educação é a aprendizagem, a avaliação deve também ter como meta a aprendizagem.”

Assim, a avaliação não se caracteriza só pelo momento de ensino para aferir os conhecimentos dos alunos, mas deve ,também, contribuir para o desenvolvimentodas suas aprendizagens.

Estas normas abrangem seis ideias que, apesar de serem em número reduzido, são suficientemente abrangentes para responderem a questões essenciais da avaliação em Matemática.

Norma para a Matemática – “A avaliação deve refletir a Matemática que todos os alunos devem saber e ser capazes de fazer.”

O processo avaliativo deve refletir em atividades matemáticas significativas e corretas, envolvendo competências básicas de resolução de problemas, incentivando a comunicação matemática e apelando ao raciocínio e à realização de conexões entre os conhecimentos. Assim, a mera aplicação de factos e procedimentos surge como resposta às necessidades dos alunos para a resolução de situações problemáticas. Tal não se pode tornar numa prática avaliativa recorrente, pois trata-se de avaliar a capacidade de mecanização dos alunos e não a sua capacidade de fazer matemática.
O processo avaliativo deve abranger questões que exijam aos alunos a aplicação de conhecimentos por si já conhecidos em situações por explorar. Um processo avaliativo que avalie apenas conhecimentos adquiridos pelos alunos, não contribuirá para o aumento da compreensão matemática dos alunos, nem irá promover o seu desenvolvimento pessoal.

Norma para a Aprendizagem – “A avaliação deve melhorar a aprendizagem em Matemática.”

A avaliação constitui uma referência, quer para quem avalia, quer para quem é avaliado. No primeiro caso, é importante a pessoa que avalia ter consciência daquilo que os alunos sabem e são capazes de fazer em Matemática. No segundo caso, é importante que quem é avaliado tenha noção daquilo que o avaliador valoriza.
As práticas avaliativas que não vão ao encontro das práticas de ensino transmitem ideias contraditórias em quem é avaliado. Desta forma, a avaliação deverá constituir uma continuidade das aprendizagens realizadas em sala de aula e não uma interrupção ou um abismo entre aquilo que é ensinado e aquilo que é avaliado.
Por vezes, a avaliação é encarada como um processo numa única fase. No entanto, esta deve ser um processo cíclico, em que o aluno aprende, é avaliado, recebe alguns comentários ou críticas construtivas e termina com a melhoria daquilo que foi produzido inicialmente.

Norma para a Equidade – “A avaliação deve promover a equidade.”

A avaliação deve promover a igualdade entre todos os alunos, atendendo à especificidade de cada um e não de forma abrangente. Isto é, a avaliação deverá olhar para cada aluno de modo a criar igualdade de oportunidades entre todos os alunos. Assim, sugere-se que esta seja muito diversificada nas suas abordagens e executada de forma a combinar múltiplos indícios avaliativos. É através da diferença que a avaliação promove a igualdade de oportunidades entre os alunos.

Norma para a Transparência – “A avaliação deve ser um processo transparente.”

Uma avaliação transparente pode ser garantida em três frentes: é pública, exige o envolvimento docente e vai sendo alterada e melhorada ao longo do tempo.
De facto, uma avaliação transparente é pública quando se estabelece os conhecimentos que serão exigidos e a forma em que esses conhecimentos se podem demonstrar e aplicar.
Na avaliação pressupõe o envolvimento docente, em que os professores se tornam membros ativos. Estes definem pontos de convergência na avaliação a ser praticada e chegam a um consenso sobre aquilo que se pretende avaliar e de que forma esses conhecimentos poderão surgir. O processo avaliativo requer uma ponderação coletiva e ativa.
A avaliação deverá ser regularmente retificada de modo a responder à evolução da sociedade, uma vez que aquilo que os alunos necessitam de saber hoje poderá não ser resposta para os conhecimentos que deverão mostrar no futuro.

Norma para a Inferência – “A avaliação deve promover inferências válidas sobre a aprendizagem em Matemática.”

O processo avaliativo revela conclusões acerca das aprendizagens adquiridas pelos alunos que não conseguem ser observadas diretamente. Assim, o professor utiliza o desempenho avaliativo dos alunos para as obter. As diferentes formas de avaliação permitem retirar conclusões acerca das aprendizagens e, quando conjugadas, conseguem retratar a realidade onde se inserem.
Algumas dessas formas de avaliação podem criar o enviesamento das conclusões devido à sua natureza. Cabe ao professor utilizar o seu bom senso porque esses enviesamentos poderão ser combatidos com o uso de uma grande variedade de instrumentos de avaliação e que conduzam à aprendizagem dos alunos.

Norma para a Coerência – “A avaliação deve ser um processo coerente.”

A Norma para a Coerência baseia- se em três pilares essenciais.
O processo avaliativo deve ser coerente em todo o seu percurso e deve estar de acordo com o seu propósito. Também deve corresponder aos objetivos a que se propõe, convergindo com as ideias e objetivos do currículo e com o próprio ensino em sala de aula. Terá de ser um reflexo das aprendizagens dos alunos.

Em jeito de conclusão, um processo avaliativo que contemple as seis nomas aqui descritas é verdadeiro, justo, equitativo e promovedor das aprendizagens dos alunos. É essencial que a avaliação tenha conta estas ideias coerentes, abrangentes e integradoras e que não se limite a um momento onde o professor apenas testa um conjunto de procedimentos matemáticos.
O objetivo é claro... A aprendizagem e o desenvolvimento dos conhecimentos dos nossos alunos.