É verdade que pouco ou nada se sabe sobre este projeto do Ministério da Educação, o que leva a que a maior parte dos colegas fiquem aflitos por estarem a lidar com um assunto com tão pouco esclarecimento público. Mas documentos para consulta não faltam para perceber o que se pretende...

Tal como o nome do projeto indica, trata-se de abrir o poder de decisão curricular para as escolas aderentes. Tendo em conta os objetivos estabelecidos no documento “Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória” de 2017, a flexibilização curricular põe nas mãos de cada um dos estabelecimentos de ensino a possibilidade de construir um currículo próprio, mas que promova o desenvolvimento de um conjunto de competências base nos alunos. Neste caso, define-se como competência as interligações que se estabelecem entre conhecimentos científicos, capacidades do aluno e atitudes. Estas competências abrangem: linguagem e textos; informação e comunicação; raciocínio e resolução de problemas; pensamento crítico e pensamento criativo; relacionamento interpessoal; desenvolvimento pessoal e autonomia; bem-estar, saúde e ambiente; sensibilidade estética e artística; saber cientifico, técnico e tecnológico; consciência e domínio do corpo.

Claro que há competências que se associam mais rapidamente a umas disciplinas do que outras, mas não deixa de ser objetivo dos professores que estas competências sejam promovidas como um todo pelas várias áreas do saber, através de projetos multidisciplinares e suficientemente abrangentes.

Agora, cada disciplina tem um conjunto de aprendizagens que se consideram serem essenciais a serem desenvolvidas nos alunos. Esses documentos também podem ser consultados. Estabelecem um conjunto de conhecimentos, de capacidades e atitudes que são o objetivo essencial no ensino e aprendizagem de cada disciplina. Agora no que à disciplina de Matemática diz respeito é mais uma vez colocada em causa (e bem) três capacidades transversais e que são de conhecimento de muitos professores: a resolução de problemas; o raciocínio matemático; a comunicação matemática. Isto lembra algo que era totalmente proibido no tempo das mudanças curriculares de Nuno Crato, não? Pois é. Estas três capacidades transversais voltaram com esta flexibilização curricular e ainda bem para os nossos alunos. Prepará-los-á para o seu futuro como cidadãos capazes de enfrentar qualquer desafio diário. Uma coisa estes documentos deixam certa... Voltou a intuição, a exploração e a “descomplicação” matemáticas em detrimento da antiga (diria mais... pré-histórica) “aquisição de factos e procedimentos” matemáticos (ainda menciona o Programa de 2013 na página 4).

Claro que identifico vários problemas na aplicação desta flexibilização curricular (e mais existirão para além destes) e que deixo em forma de questões para o leitor:

  • Será que o sistema educativo português, e em particular os estabelecimentos de ensino, estão prontos para esta excessiva abertura curricular?
  • Será que o corpo docente português está pronto para deixar de seguir os já elaborados e “prontos a consumir” manuais escolares em função da construção dos seus próprios manuais (na minha opinião e se este projeto continuar eventualmente terá de se pensar nisto)?
  • E formação e informação sobre este projeto? Onde anda?
Apesar de todas estas questões que andam na nossa cabeça, a Matemática só terá a ganhar com isso e a motivação dos nossos alunos. É importante não baixarmos os braços nunca e não nos deixarmos vencer por inseguranças. Calculemos os riscos, arrisquemos e se sair mal, na próxima vez melhora-se. É um processo semelhante à resolução de um problema de matemática...