A resolução de problemas tem, consensualmente, um papel central na Matemática, no seu ensino e na sua aprendizagem. Apesar de consensual, tem sido difícil integrar com sucesso e efetivamente a resolução de problemas nas práticas de ensino, tem sido um processo prolongado no tempo e nos diferentes espaços de aprendizagem...

Em competições de âmbito local e nacional tem sido mais fácil promover a resolução de problemas de Matemática do que em salas de aula. Livros, publicações na Internet, jornais e revistas têm contribuído mais para a resolução de problemas de Matemática do que os manuais escolares da disciplina. Parece que é mais fácil resolver problemas fora da sala de aula do que durante as atividades letivas.

Não é estranho que a atividade de resolver problemas ocorra em espaços complementares à sala de aula… o que não é natural é que, nas aulas de Matemática, a resolução de problemas ainda não seja uma atividade tão comum como seria desejável.

E o lugar dos problemas não se resume à fronteira definida pela porta da sala de aula… os problemas que vinham ganhando algum espaço no ensino da Matemática, foram recentemente remetidos para o final dos capítulos… nos programas, nos manuais e nas aulas. De forma progressiva e consistente os problemas tinham conquistado um “lugar natural” no início dos capítulos onde as heurísticas, os algoritmos e os procedimentos ainda não tinham sido explicitados e identificados, valorizando a identidade da resolução de problemas e os problemas em si, pela criação de condições para resoluções alternativas.

Era uma tendência que começava a criar bons hábitos de resolução de problemas. Bons indícios de uma mudança lenta, mas no sentido certo.

Recentemente, e de forma quase automática, os problemas foram relegados para o final dos capítulos... nos programas, nos manuais e nas aulas. No final dos capítulos, depois de terem sido valorizados procedimentos e algoritmos os problemas perdem a sua identidade e o seu potencial é reduzido. Os problemas ficam mais parecidos a exercícios, as resoluções mais uniformizadas e a atividade de resolver problemas mais pobre.

Se a localização dos problemas dentro ou fora da sala de aula só valoriza o local onde a atividade é exercida, a colocação sistemática dos problemas no final dos capítulos desvaloriza a própria atividade de resolução de problemas - os problemas ficam “perdidos”, como se estivessem no local errado. Paradoxalmente a enfatização dos problemas no final do capítulo desvaloriza o papel da resolução dos problemas… e esta mudança parece ocorrer com uma velocidade superior ao desejável.

Implementar um ensino centrado na resolução de problemas é difícil… demora tempo (demora anos) a ser conseguido e exige que seja reservado tempo (tempo nas aulas) para esta atividade. Se se remeter a resolução de problemas para uma aplicação de conteúdos e algoritmos previamente estudados e treinados e não se considerarem tempos e espaços para esta atividade, estaremos a contribuir para um Ensino da Matemática com menos problemas (dos bons) e simultaneamente com mais problemas (dos maus).

primeira versão deste texto foi originalmente publicada na rubrica Valor Absoluto do Clube de Matemática da SPM, em 11 de março de 2016.