A formação de professores (também de Matemática) é um aspeto essencial para a melhoria da qualidade de ensino… Recentemente participei num curso de formação em que foi aprofundado o conhecimento da tecnologia e que envolveu professores de Matemática e de Física onde foi possível refletir sobre a dificuldade e a necessidade de integrar o currículo do ensino secundário, nestas duas disciplinas.

Um dos momentos formativos implicava a testagem de sensores, a aquisição de dados e a construção de modelos matemáticos coerentes com os dados recolhidos. Nada de novo - em teoria… Mas existem vários aspetos interessantes neste tipo de trabalho, num contexto formativo que merecem ser valorizados.

O entusiasmo dos professores - de Física e de Matemática - na experimentação deste tipo de abordagem é um indicador do mérito e das potencialidades educativas da tecnologia. É um erro grave ignorar o entusiasmo (ou o descrédito) dos professores em relação ao currículo, às metodologias e didática - estamos todos de acordo!

Mas também é importante pensar sobre as diferenças com que professores de Matemática e Física encaram o trabalho com os sensores. As reações perante um conjunto de dados (naturalmente) imperfeitos, é bastante diferente… alguns professores (de Matemática) tentam melhorar as recolhas recorrendo a variações no número de recolhas e do tempo entre recolhas, enquanto outros professores (de Física) se preocupam com as limitações técnicas dos sensores. Alguns professores (de Matemática) tendem a valorizar pequenas variações dos dados em relação ao modelo esperado, enquanto os outros professores (de Física) tendem a desvalorizar os dados que refletem algum ruído ou imperfeição da recolha…

E as diferenças não ficam pela recolha dos dados… quando se constrói um modelo, a abordagem teórica do modelo é também estruturalmente diferente. Procuram-se dados diferentes, usam-se designações diferentes e obtém-se respostas diferentes… com algum investimento e com algum esforço, os professores - de Física e de Matemática - conseguiram encontrar pontes para a identificação das semelhanças e da complementaridade… mas não foi fácil - tal como não é fácil para os alunos.

Fica claro, num processo formativo deste tipo que, por exemplo, o estudo do mesmo movimento parabólico é estruturalmente diferente na aula de Matemática e na aula de Física… as questões relevantes não são as mesmas, as perguntas são diferentes e as respostas mais diferentes ainda… e podia ser diferente e bom, se fosse complementar - mas não é, ou pelo menos, não parece nada - tal como não parece aos alunos (de Física e de Matemática).

Fica também muito claro que existe um potencial enorme no trabalho conjunto dos professores de Matemática e de Física nas escolas, mas também ao nível do currículo. Não é honesto apregoar a necessidade do trabalho colaborativo e os méritos da interdisciplinaridade quando os currículos são construídos de forma estanque e sem qualquer esforço visível para uma integração do conhecimento.

É até possível identificar uma destruição desta articulação por parte de um currículo mal concebido. Por exemplo, a regressão estatística era trabalhada pelos alunos do 10º ano em Matemática e posteriormente mobilizada pelos professores de Física, num processo de articulação - modesto, mas efetivo. As alterações curriculares recentes vieram quebrar esta ligação, contribuindo para acentuar o que nos afasta em vez de valorizar o que nos une a nós professores (de Física e de Matemática)... porque os alunos… esses são os mesmos!

primeira versão deste texto foi originalmente publicada na rubrica Valor Absoluto do Clube de Matemática da SPM, em 11 de junho de 2016.