De vez em quando apelidam-me de “matemático”... título com o qual nunca me senti confortável. Poderia dizer que não mereço tamanha honra, ou que o título perdeu muito prestigio recentemente, mas nenhuma das razões é correta. Julgo que nem a minha atividade profissional ou a utilização que faço da matemática se enquadra no meu conceito de “matemático”. O Arsélio Martins (que vou definir como “professor de matemática”) colocou a diferença entre as duas definições com a clareza que os (melhores) “professores de matemática” conseguem, mas todos os “matemáticos” apreciam.

Mas a lista de “atores” matemáticos não se esgota nestas duas entradas... para além dos matemáticos (que demonstram resultados e valorizam a abstração) e dos professores de matemática (que dependem da comunicação), existem também investigadores em educação matemática (que analisam de forma rigorosa e sistemática a melhor forma de ensinar e aprender matemática). E a lista ainda não fica completa... os engenheiros usam matemática (muito preocupados com boas estimativas, margens de erro e verificações), os economistas usam matemática (julgo que devem ser os maiores apreciadores de pontos de inflexão), os arquitetos usam matemática (levando o rigor geométrico para além do limite da maioria dos matemáticos), e poderíamos continuar a acrescentar entradas a esta lista...

Como existem muitos “atores” matemáticos, será natural assumir vários “palcos” – ou seja – várias matemáticas. Claro que invocar uma multiplicidade de matemáticas pretende enfatizar uma variedade de abordagens e utilizações e não desconstruir a unicidade e a conexão das diferentes áreas da matemática. Neste pressuposto de “muitas matemáticas” é tentador estabelecer uma relação entre as matemáticas e os atores matemáticos... Qual é a matemática dos matemáticos? E a matemática dos professores de matemática? E a matemática dos engenheiros? E a matemática dos economistas? E a matemática dos cidadãos?

Se concordamos que existem todas estas “matemáticas”, uma questão que se coloca, é qual delas deve ser ensinada na escola? Respostas prudentes serão “um pouco de todas”, ou “depende da idade”. Mas... será que a abrangência desejada não está a ser preterida pela profundidade inadequada? Ou seja, a “matemática dos matemáticos” não está a ocupar demasiado espaço (e tempo) nos currículos – de todas as idades – retirando importância e protagonismo à “matemática dos cidadãos”?

primeira versão deste texto foi originalmente publicada na rubrica Valor Absoluto do Clube de Matemática da SPM, em 11 de outubro de 2013.