No final do ano letivo, em 2015, foi época de mudança de manuais de Matemática... os das disciplinas do 10º ano e os do 9º ano. Mudanças muito diferentes.

Os de 10º ano, selecionados pelos professores, e os de 9º ano impostos a cada escola pela coincidência do título e dos autores, relativamente à última adopção. Quase inexplicavelmente os de 9º ano com mais tempo para a sua edição ainda não eram conhecidos no final do ano letivo, contrariamente ao que aconteceu com os de 10º ano, cujos autores tiveram ao seu dispor um menor período de tempo para produção do manual, desde a homologação do programa. Surpreendentemente, as editoras, tradicionalmente muito assertivas a reivindicar condições para o desenvolvimento de um bom trabalho, não tornaram públicas quaisquer reservas em relação ao pouco tempo disponível para a preparação dos manuais de Matemática A.

Talvez pelos constrangimentos de ordem temporal, nenhum dos manuais disponíveis arriscou uma organização diferente dos conteúdos relativamente ao novo programa de Matemática A. Logo no programa da “liberdade pedagógica” todos as propostas plasmam com uma fidelidade acrítica a ordenação dos conteúdos do programa. Era fácil propor, por exemplo, o estudo da lógica integrada com conjuntos de pontos e condições algébricas, estudar polinómios e funções polinomiais de forma integrada ou estudar radicais a propósito do cálculo de áreas e volumes. De resto, estas, nem sequer são ideias originais - foi assim que se fez ao longo da última década...

O grande investimento de todos os manuais do 10º ano parece ter sido a ser a produção de materiais de apoio. O que é mais extraordinário é que os destinatários do apoio são principalmente os professores. Produziram­-se planificações de relevância muito duvidosa, que a maioria dos professores não usam, mas que têm custos a suportar (indiretamente) pelos alunos. De forma ainda mais anacrónica, as resoluções dos exercícios são facultadas aos professores e não aos alunos. Ironicamente, os professores recebem gratuitamente estas resoluções ­- de que não deviam precisar ­- sendo os custos de produção desta parte significativa dos manuais (destinados exclusivamente a professores) imputados aos alunos ­ que são quem mais poderia com ela beneficiar... Ou seja, resolvem­-se os exercícios, imprimem-­se as resoluções em papel caro e distribuem-­se gratituitamente aos professores, ao mesmo tempo que imputamos os custos aos alunos, sem que a elas tenham acesso... verdadeiramente impressionante!

Um indicador da falta de relevância destes materiais é o facto de que os manuais do 9º ano (e antes dos 8º e 7º anos) ­ os tais que chegam às escolas sem terem sido selecionados pelos professores ­ terem sido produzidos sem planificações, sem resoluções dos exercícios e sem os acessórios de relevância duvidosa e custos relevantes... espantosamente, apesar de terem sido editados sem estes materiais, chegam aos alunos com um custo semelhante... dá que pensar...

Finalmente, uma nota sobre a certificação dos manuais -­ gerou (mais) um acréscimo ao custo de produção ­- a imputar aos consumidores finais ­- sem que deste processo não sejam conhecidos indicadores de uma melhoria na qualidade dos manuais... parece ser um processo que ter mais que ver com publicidade do que com qualidade.
Pobres alunos que compram manuais caros.

primeira versão deste texto foi originalmente publicada na rubrica Valor Absoluto do Clube de Matemática da SPM, em 11 de junho de 2015.