Nos últimos meses, tenho vindo a refletir e a sentir o que é ensinar o novo programa de Matemática na sua plenitude. Se até ao ano passado, eu sentia que os meus alunos chegavam ao décimo segundo ano com vários conceitos bem trabalhados e percebidos, este ano deparo-me com uma situação mais grave, sem tentativas de generalizações e baseando-me apenas nos alunos que tive e tenho. Várias são as suas lacunas, sem terem noção de alguns elementos básicos nas várias áreas do saber matemático (geometria, estatística, álgebra, cálculo infinitesimal, entre outros).

Para mim, é impensável que um aluno, que termine o seu décimo segundo ano, entre na Universidade sem ter noção do que é uma função distribuição de probabilidade, sem conseguir dominar bem a equação cartesiana de um plano, sem saber regras básicas de potências, sem escrever bem formalmente o limite de uma determinada função/sucessão.

Mas não... Estes elementos são parcialmente importantes. Pois a estes, têm de se juntar o crucial (no sentido irónico da coisa) Teorema de Lagrange, o método do completar o quadrado para a resolução de equações do 2º grau, a equação vetorial de um plano, o Teorema da Probabilidade Total, o conceito de função bijetiva. Sim! Tudo isto! Bastante importante!

O que é importante é saberem todas as “picuinhices” que na verdade trabalham tudo a curto prazo, mas realmente não trabalham nada a longo prazo. O que é importante é o rigor, é o formalismo puro e duro, é o pormenor dos pormenores. O que é importante é que todos se tornem pequenos alunos, que a aprendizagem não seja envolvente e democrática. O novo Programa promove uma aprendizagem para tornar os alunos em grandes Matemáticos, mas, ao mesmo tempo, tão pequenos nas grandes aprendizagens, naquelas que realmente interessam.

Os alunos cada vez mais trabalham menos matemática, tal como ela deve ser trabalhada, e cada vez menos trabalham na matemática que interessa. A Matemática quer-se abrangente, global a todos, integradora de todos... E isso só se consegue usando estrategicamente as ferramentas essenciais, deixando as ferramentas de pormenor para quem realmente pretende, mais tarde, estudar sobre determinados assuntos em específico.

E depois como é que nós, professores, podemos lidar com a velha e sempre típica pergunta do “Mas para quê que isto serve?”? A mim só me dá vontade de responder “Para nada aluno. Ignoramos e passamos ao que interessa, aquilo que realmente te irá ajudar no futuro”.

Já diz o velho ditado “Quantidade não é sinónimo de Qualidade”. Se há coisa que este programa tem é quantidade, mas tem uma imensa falta de qualidade, o que é uma pena, pois estávamos a caminhar bem na direção que interessa.