Uma noite, após o final do jantar, o meu filho de 5 anos estava comigo à mesa e pediu à mãe – que já tinha saído da cozinha – para comer uma bolacha. Como eu estava junto dele, perguntei-lhe porque razão tinha pedido à mãe e não a mim. A resposta foi: “Porque a mãe deixa mais vezes que tu!” Notei que a argumentação não foi no sentido de que a mãe deixava sempre, ou que eu nunca deixava. A incerteza envolvida neste processo de tomada de decisão implicou algum tipo de critério que assentou claramente num raciocínio probabilístico. Fiquei orgulhoso!

Na mesma altura, ouvi um eminente matemático do nosso país afirmar que não se podia ensinar Probabilidades no 1º ciclo do ensino básico... e não deve ser uma opinião apenas dele, porque o currículo foi mesmo alterado no sentido de não se poder. Fiquei desiludido.

Num artigo escrito em 1992, Michael Shaughnessy afirmou que todas as pessoas usam o raciocínio probabilístico – talvez mais do que em qualquer outra área da matemática – independentemente do facto de lhe ter sido ensinado ou não. Naturalmente a sistematização (desejável) da teoria das probabilidades não ocorre espontaneamente sem ser ensinada, nem pode ser ensinada a crianças muito de tenra idade. Mas o raciocínio probabilístico não depende só de cálculos e demonstrações e muitas vezes a tomada de decisões que envolvem incerteza, resulta (apenas) da análise, mais ou menos consciente, de um conjunto de experiências. Repetir experiências, registar e analisar a ocorrência de um acontecimento para inferir um valor (aproximado) da probabilidade, é uma forma válida de lidar com a incerteza, e até é utilizada na investigação de ponta... e também pode ser usada por crianças do 1º ciclo.

A mobilização do raciocínio probabilístico envolve riscos relacionados com conceções erróneas, falácias ou crenças e depende de heurísticas e procedimentos próprios de situações em que a incerteza assume relevância determinante. Por isso mesmo, poder sensibilizar as crianças para estes riscos ou munir os alunos destas heurísticas específicas, de forma progressiva e continuada, com tarefas e estratégias adequadas à sua idade desde cedo, é não só possível, mas desejável!

Como diz Arthur Benjamim numa Ted Talk de 2009, valorizar o ensino da estatística e probabilidade, para além de ser uma evolução no sentido de aproximar a escola à sociedade, também é divertido! E a escola, e a matemática, podem – e devem – ser agradáveis para os alunos, sem que isso signifique descuidar a formação dos alunos e a promoção de aprendizagens significativas e rigorosas. Pouco rigoroso e nada ambicioso é defender o contrário.

Ah... é verdade, a mãe acedeu ao pedido – aos 5 anos a mobilização do raciocínio probabilístico deu frutos... ou melhor, deu bolachas!

primeira versão deste texto foi originalmente publicada na rubrica Valor Absoluto do Clube de Matemática da SPM, em 11 de junho de 2013.