Gosto palavras com dois ou mais significados, podem ser usadas para dizer frases que possibilitem várias interpretações... O verbo “estimar” é uma destas palavras: Estimo que a estimativa seja muito estimada!

Estimar a Matemática, no sentido de nutrir por alguém ou alguma coisa um sentimento positivo, tem sido referida numa formulação mais eloquente – desenvolver atitudes positivas relativamente à Matemática – e tem sido identificada como um fator essencial no sucesso do ensino e aprendizagem da Matemática, que deve ser assumido e enquadrado no ensino de forma explícita.

Estimar a Matemática é também perceber, e assumir, a relevância para a interpretação da sociedade e da realidade, muito para além da visão redutora, defendida por alguns matemáticos e não-matemáticos, que a pretende restringir às quatro operações elementares e cálculo de algumas áreas.

Estimar também tem sido entendido como uma das competências importantes em Matemática, quando entendida como a capacidade de fazer previsões razoáveis ou indicar valores plausíveis sobre algum tipo de medida ou quantidade... e também tem merecido a estima de Matemáticos e Educadores Matemáticos. Entender a Matemática como um conjunto de factos, conceitos e procedimentos, sem lugar para competências é deixar de fora a capacidade de fazer estimativas.

Enrico Fermi, um físico italiano, costuma colocar questões sobre quantidades impossíveis de calcular ou medir, como o objetivo de suscitar estimativas tão sustentadas quanto possível. Existem muitos exemplos destas questões e das respetivas respostas... umas famosas, outras divertidas, quase todas intrigantes e desafiadoras...

Quantos afinadores de piano vivem em Nova Iorque? Quantas gomas cabem num vaso com capacidade de 1 litro? Quantos cabelos existem numa cabeça? Quantas “sandes de courato” são vendidas nos estádios de futebol da primeira liga, numa época? (o formulação original desta última questão reportava-se ao basebol e contava cachorros-quentes). 
Este tipo de questões ficaram conhecidas como “Perguntas de Fermi” ou “Estimativas de Fermi”. Naturalmente, da resposta só importa a plausibilidade da mesma, o essencial é o raciocínio e argumentação que sustentam a resposta (outras competências que merecem a nossa estima).

É essencial que se estimem as estimativas... em Singapura (o país com melhor desempenho no último estudo internacional – o TIMMS 2011) a estimativa é uma das sete competências identificadas como essenciais no currículo de Matemática... por cá estamos a substituir documentos curriculares que a valorizam por outros que a ignoram... será falha de memória? Não deve ser, porque memória é muito estimada nestes documentos!

primeira versão deste texto foi originalmente publicada na rubrica Valor Absoluto do Clube de Matemática da SPM, em 11 de maio de 2013.