... e as calculadoras que andam por aí.

Esta é uma história verídica...
Há alguns anos, a minha filha trouxe, como trabalho de casa, uma folha (quadriculada) com várias divisões que deveria “efetuar” pelo algoritmo tradicional... quando terminou, como de costume, pediu-me que verificasse.
Fiquei muito satisfeito, a minha princesinha sabia fazer aquilo – acertou a maioria, e quem acerta a maioria naquela longa lista é porque já percebeu e domina o algoritmo! Relativamente aos enganos, pensei que os poderia indicar, ou deixar que ela os identificasse – optei pela segunda alternativa (que não era mais fácil). Sugeri-lhe que usasse uma máquina registadora de brincar, que estava por perto (e que ela tem desde os 3 anos) com uma calculadora que funciona (e apita de forma irritante).

Se a calculadora favorece ou inibe as capacidades matemáticas de cada um, haverá opiniões distintas... eu acho que pode favorecer, e muito, mas a questão essencial nem sequer é essa; as calculadoras existem e os alunos (e outras pessoas) usam-nas. A constatação de que os alunos (e outras pessoas) dependem da calculadora para fazerem cálculos elementares ou que confiam nos resultados sem os criticar são efeitos secundários indesejáveis e há muito identificados... mas... se os alunos (e outras pessoas) usam mal a calculadora, não deveria a escola ensinar a usá-la bem? Se os alunos (e outras pessoas) recorrem à calculadora sem critério e se esta não for usada na escola, deverão os alunos disciplinar o recurso à calculadora autonomamente? Se os alunos (e outras pessoas) usam a informação disponível sem hábitos de criticar e questionar, não deveria a escola contrariar esta tendência?

Voltando à história verídica... a minha filha identificou quase todos os erros sem a minha ajuda... falhou a identificação de um erro, quando este ocorria no resto e não no quociente – a calculadora não ajudou (!). Aí falei com ela sobre a parte decimal do resultado apresentado na máquina, e o facto do resto ser exatamente metade do divisor e da comparação com a parte decimal esperada... depois verificamos outras divisões, comparando o resto com o divisor e prevendo se a parte decimal da divisão seria superior ou inferior a 5 décimas – aproveitámos melhor os restos e a calculadora, que continuava a apitar de forma irritante...

Terá a calculadora toldado a compreensão ou o domínio do algoritmo? Terá contribuído para adormecer o seu espírito crítico? Talvez devesse ter identificado rapidamente os erros e recomendado mais uma página A4 de cálculos para ajudá-la a melhorar – teria a vantagem de ter sido mais silencioso...

primeira versão deste texto foi originalmente publicada na rubrica Valor Absoluto do Clube de Matemática da SPM, em 11 de abril de 2013.