Geometria hiperbólica e croché.

Esta é uma história em segunda mão (ou terceira)... em pouco tempo encontrei em dois livros diferentes um capítulo dedicado ao mesmo assunto: Daina Taimina – uma senhora matemática – revolucionou a geometria hiperbólica com... croché!
Daina estudou geometria hiperbólica, observou a dificuldade em produzir um modelo físico de planos hiperbólicos e percebeu as vantagens de o fazer em croché. Pensou um pouco, muniu-se de uma agulha e... voilá. A combinação de duas competências, aparentemente sem qualquer relação, permitiu escrever mais uma página (ou um capítulo) na história das geometrias não euclidianas. A ideia, como todas as boas ideias, rapidamente deixou de estar confinada ao contexto onde surgiu, e já permite estudar, por exemplo, o crescimento de corais.

Naturalmente não será, aqui, tentado resumir qualquer um dos capítulos dos livros de Alex Bellos (Alex no país dos números) e de Jorge Buescu (Casamentos e outros desencontros), cuja leitura integral, destes e dos restantes capítulos, se aconselha vivamente.
Mesmo com esta versão telegráfica da história podemos divagar um bocado sobre o assunto... Nenhum homem tinha pensado nisto? E também nenhuma mulher, antes? A combinação (pouco frequente) de alguém simultaneamente versado em lavores e em geometria hiperbólica, tinha reservado esta evolução para uma contingência social muito específica – uma combinação extraordinária de modernidade e de antiguidade!

É agradável acreditar que cada alteração do contexto social será um terreno fértil para a evolução do conhecimento, e por isso, da sociedade, e por isso poderá gerar mais oportunidades para melhorarmos o nosso conhecimento... Esta história pode ainda ser uma boa resposta para os que questionam a utilidade da Matemática (como fazem tantos alunos), as competências que conseguirmos ganhar podem ser, mais tarde, rentabilizadas de formas inesperadas com impactos bastante imprevisíveis, se lhe dermos uma boa oportunidade.
As histórias mais conhecidas são aquelas em que a Matemática serve de catalisador para evoluções ou melhorias de processos em outras atividades humanas... mas parece que o recíproco também pode acontecer!

Claro que aprender croché e geometria hiperbólica já não será uma conjugação interessante, por falta de originalidade... Que outras combinações improváveis de competências poderão resultar em avanços interessantes? Quem sabe se não existe um belo pedaço de Matemática à espera de ser descoberto (ou inventado) por um(a) cozinheiro(a) que estude topologia, ou um(a) polícia que se dedique ao estudo do caos, ou um(a) advogado(a) que aprofunde a geometria fratal?

O abuso de parêntesis no parágrafo anterior é uma prudência conveniente... e justa – afinal, pelo menos na língua de Camões, Matemática é do género feminino!

primeira versão deste texto foi originalmente publicada na rubrica Valor Absoluto do Clube de Matemática da SPM, em 11 de março de 2013.