...ou o fim das máquinas de calcular.

Em 2013 um grande fabricante de calculadoras gráficas anunciou a disponibilização de uma aplicação para o iPad que era, sem surpresas, uma calculadora gráfica.
Outras aplicações do mesmo tipo já tinham sido disponibilizadas na Apple store, ou no Google Play para a plataforma android. Poderá ser o fim das calculadoras que conhecemos...

A evolução das calculadoras já passou por muitos estádios... as máquinas de calcular analógicas desapareceram com o surgimento das “modernas” calculadoras digitais... que depressa evoluíram das operações simples para um formato “científico”... para mais tarde permitirem o traçado de gráficos, e mais recentemente, a manipulação algébrica computacional (CAS).

Todas estas etapas anteriores dependiam de um objeto, mais ou menos compacto, quase sempre com um conjunto de teclas, exclusivamente dedicado à computação de valores numéricos ou expressões algébricas. Mas desde há alguns anos a calculadora foi deixando de ser um objeto e passou a ser mais um conceito... computadores e telemóveis começaram há muito a incluir calculadoras, no sentido virtual do termo.
O advento de tablets pode agora sentenciar, definitivamente, o fim das máquinas de calcular... das máquinas! O conceito de calculadora parece que sobreviverá ao fim do objeto, e provavelmente com um vigor renovado...

É interessante pensar num conceito que surgiu acoplado a um objeto – uma máquina – possa evoluir para um conceito “desmaterializado”. A questão dará que pensar ao filósofos, mas a um nível muito prático pode ter implicações significativas, uma vez que o próprio conceito de “calculadora” não deverá ficar imune a evoluções.

Vamos especular sobre algumas hipóteses... por exemplo se, para adicionar dois números, não os separarmos pela tecla “+” (ou um botão no ecrã com a mesma função), mas arrastarmos um dos números para junto do outro, este tipo de abordagem não poderá alterar as conceções associada à soma? E se somarmos termos de uma equação da mesma forma – arrastando os termos semelhantes para perto uns dos outros? Imagine que para dividir um número pode apenas fazer um (ou mais) “corte”(s) no número com o dedo... poderá esta abordagem permitir um melhor entendimento do conceito de divisão? E se a calculadora poder ser configurada para recusar uma resposta até que o utilizador faça uma boa estimativa do resultado?

Se estendermos a especulação para a interação com formas geométricas, com dados estatísticos na sua forma numérica ou gráfica, com funções na forma gráfica ou algébrica, com repetições de experiências aleatórias para o cálculo de probabilidades, e com as outras hipóteses que a falta de imaginação e a habituação à realidade atual dificultam, então a calculadora poderá ser um dispositivo (ainda mais) fantástico!

É interessante especular sobre as implicações destas evoluções... desde logo, a Escola terá que incorporar esta alteração e rever o seu posicionamento relativamente a dispositivos móveis de comunicação – telemóveis, tablets e outros que venham por aí... à Matemática e ao Ensino da Matemática (e ao ensino em geral) não restarão alternativas que não passem pelo reconhecimento do potencial educacional deste tipo de tecnologia.
A forma como comunicamos e como usamos a tecnologia está a mudar tanto como a própria tecnologia em si, e se a Escola não mudar para acomodar estas mudanças, as mudanças mudarão a Escola.

primeira versão deste texto foi originalmente publicada na rubrica Valor Absoluto do Clube de Matemática da SPM, em 11 de fevereiro de 2013.