No passado dia 22 de junho, o ex-ministro da Educação e Ciência, senhor doutor Nuno Crato, deu uma entrevista à Rádio Renascença respondendo a algumas questões acerca dos Programas de Matemática em Portugal. A entrevista/notícia intitula-se “Crato contra a revisão do programa de Matemática” e pode ser consultada e ouvida aqui. Aviso desde já que esta entrevista não é aconselhada a professores de matemática informados que sofram de algum tipo de patologia cardíaca. A probabilidade dos níveis de batimento cardíaco subirem exponencialmente é grande e poderá levar a estados patológicos graves.

Voltando ao que se pretende, decidi então neste texto dar alguma atenção às palavras do nosso rigoroso, organizado e ambicioso ex-ministro nesta entrevista.

Comecemos logo com a seguinte afirmação, que não deixa de ser irónico, visto ter vindo de onde veio “Matemática tem de ser ensinada passo a passo e de forma pausada”. A seguir remata com “Os currículos não são extensos.” Realmente, eles não são extensos. Impressão nossa, professores de Matemática, que estamos no terreno e não sabemos do que falamos. Era giro convidar o nosso ex-ministro para ir dar um ano de aulas, usando o Programa e Metas, ao quinto ano, por exemplo. Do modo como ele fala, os níveis de sucesso haveriam de ser fantásticos e em três meses todos os conteúdos seriam dados, com toda a certeza.

O que é facto é que o ministro reconhece que “Portugal progrediu muito.” Mas depois não sabe fazer as contas pois afirma que “A Matemática melhorou de há 10 anos para cá.” Se bem nos lembramos da cronologia dos programas, esse período inclui o Programa de 2007. Será que o Ministro também está a falar sobre esse período? Então para quê mudar radicalmente o que já estava estabelecido e que a todos agradava par algo cujo nível de qualidade não é reconhecida de todo? Porquê não dar continuidade ao que já existia?

Outra das afirmações que nos fica na memoria desta entrevista é que as metas pretendiam ser um estimulo para alunos e professores. Aonde é que ensinar a memorizar (apenas por memorizar) um conjunto de regras e procedimentos pretende estimular ou entusiasmar seja quem for? A Matemática não se quer memorizada ou decorada. Não se pretende isso com ela! Estimulasse raciocínio com a Matemática, não memorização. Mas pronto... O que importa é que “A Matemática evolui muito.” pois passou a haver um “Ensino sistemático, organizado e ambicioso.” Sistemático e organizado porquê? Por passar a haver uma lista de metas em que os professores e encarregados de educação podem ir fazer uma check list do que foi atingido? Por se realizar de”monstra”ções de resultados matemáticos para alunos de 7º ano que são impercetíveis e desnecessárias? Mas é que o ensino da Matemática já era organizado antes da intervenção do seu Ministério. Ninguém precisou destas metas, quando estas serviram, apenas e só, para piorar a situação. Mas, claro, eu tenho um problema... Como o Sr. Ex Ministro refere, eu pertenço ao “clube” da “corrente ideológica sobre o ensino da Matemática que acha que o ensino não deve ser organizado, que o ensino deve ser baseado na descoberta, deve ser baseado nos interesses dos alunos, não deve ser baseado em programas estabelecidos, não deve ser baseado em programas ambiciosos. Essa corrente ideológica pretende destruir tudo o que foi realizado nos últimos 15 anos.” (mais uma vez, acho que as contas não foram bem feitas neste momento da entrevista). Mas então quais são os critérios para definir se o método de ensino que pratico é organizado e como saber se o método de ensino que pratico é ambicioso? Ah! Já sei... Deve ser o seguinte... Se os meus alunos de 7º ano souberem enunciar o Teorema de Tales e souberem demonstrá-lo, então o meu método de ensino é espetacular. Deve ser isso com toda a certeza.

Sim! Os alunos não se querem a “progredir alegremente” (palavras do entrevistado). Queremos é ver os alunos tristes e desanimados. Isso até os faz querer aprender mais matemática e tudo! Ou não...

Em conclusão... Sr. Nuno Crato se pretende fazer declarações públicas sobre qualquer assunto ligado à Educação faça-o de forma cuidada, informada e ponderada. Só lhe fica mal que numa entrevista se consiga contradizer a cada frase que diz e declara. Porque não estabelecer metas para as suas declarações? Não, isto não é implicância. Simplesmente nenhum professor de Matemática aguenta com tanta declaração sem fundamentação nenhuma.